Como escrever um diário pessoal (e não desistir ao fim de uma semana)

Não precisas de talento nem de uma hora por noite. Um formato à tua medida, algumas frases por dia e meia dúzia de regras simples chegam para o diário se tornar um hábito.

A equipa Emori · Atualizado a · 8 min de leitura

Para escrever um diário, escolhe um formato simples (caderno, app ou a tua voz), um momento fixo do dia e regista todos os dias pelo menos um facto concreto e o que sentiste com ele. Três frases chegam. O que conta não é o tamanho, mas a regularidade, e o prazer de reler mais tarde.

Muitos adultos tiveram um diário na adolescência e acabaram por o abandonar. A boa notícia: em adulto, o diário não tem de ser um exercício literário nem um desabafo diário. Pode ser um rasto tranquilo da tua vida, que vais gostar de reencontrar daqui a dez anos.

O que é um diário pessoal, e o que não é?

Um diário pessoal é um registo datado e privado do que vives, pensas e sentes, escrito só para ti. Não tem leitores, nem notas, nem regras de estilo.

O que ele não é conta tanto como o resto:

  • Não é uma agenda. A agenda diz o que vais fazer, o diário guarda o que viveste.
  • Não é uma lista de tarefas. «Compras, dentista, emails» não te vai dizer nada daqui a um ano.
  • Não é terapia. Escrever costuma ajudar a ver as coisas com mais clareza, mas se algo te pesa a sério, falar com um profissional é o passo certo.
  • Não é uma prova. Não tens nada a provar a ninguém. Uma entrada escrita à pressa vale mais do que uma página em branco.

Que formato escolher: caderno, app ou voz?

O melhor formato é aquele que ainda vais usar daqui a três meses. Estas são as três opções principais.

FormatoIdeal sePontos fortesLimites
Caderno de papelgostas de escrever à mão e tens um ritual à noiteTátil, sem ecrã, sem bateriaDifícil de pesquisar, fica em casa, fácil de esquecer
App para escreverescreves depressa no teclado e queres encontrar tudoPesquisa, fotos, sempre no bolsoEscrever no teclado cansa ao fim do dia
Diário por voztens pouco tempo ou não gostas de escreverRápido, natural, cheio de pormenoresPrecisas de um sítio sossegado para falar

Se estás indeciso, começa pela voz ou por três linhas numa app: são os formatos que pedem menos esforço. O nosso guia do diário por voz explica como contar o teu dia em dois minutos, e o guia do diário sem escrever apresenta outros métodos para quem não se dá bem com a caneta.

Como fazer um diário pessoal: o plano dos primeiros 7 dias

A primeira semana serve para criar o gesto, não para escrever páginas bonitas. Cada dia tem uma tarefa muito curta:

  1. Dia 1: três frases sobre o teu dia, nada mais.
  2. Dia 2: um único momento, com um pormenor concreto (um nome, um lugar, uma frase que ouviste).
  3. Dia 3: uma coisa que te irritou, e porquê.
  4. Dia 4: três coisas pelas quais estás grato esta noite.
  5. Dia 5: uma conversa do dia, quase palavra por palavra.
  6. Dia 6: uma só frase, para treinar as noites sem energia.
  7. Dia 7: relê as tuas seis entradas e aponta o que te surpreende.

No fim da semana sabes quanto tempo demora uma entrada, que momento do dia te convém e o que gostas de contar. A partir daí, o formato é livre.

O que escrever num diário?

Escreve o que aconteceu, com quem, onde e o que pensaste disso. Os factos datados e os pequenos pormenores são o que dá valor ao diário com o tempo.

Um estudo famoso mostra porquê. O psicólogo Willem Wagenaar registou cerca de 2400 acontecimentos da própria vida durante seis anos e depois pôs a memória à prova. «O que aconteceu» era a melhor pista para recordar e «quando» a mais fraca, e muitos acontecimentos que pareciam esquecidos voltavam assim que recebia pormenores suficientes (Wagenaar, 1986). Por outras palavras: um nome, um lugar ou um cheiro valem mais do que um parágrafo comprido sobre o teu estado de espírito.

Se ficares bloqueado, responde a uma destas perguntas:

  • Que momento de hoje quero guardar?
  • Com quem falei, e sobre o quê?
  • O que me fez rir, ou me tirou do sério?
  • O que aprendi ou descobri?
  • O que me espera amanhã?

Encontras mais de cem ideias organizadas por tema na nossa lista de perguntas para o diário.

Exemplos de diário pessoal: uma entrada curta e uma longa

Aqui ficam dois exemplos, para mostrar que uma entrada curta conta tanto como uma longa.

Uma entrada curta, numa noite de cansaço:

16 de outubro. Dia cinzento, emails a mais. Ao almoço, sopa com o João na pastelaria da esquina, ri imenso com a história da bicicleta que lhe roubaram. Cama cedo.

Uma entrada mais longa, num dia que conta:

Sábado, 18 de outubro. Anos da mãe, éramos doze em casa dela, no Porto. A Inês fez o bolo de chocolate da avó, com a velha ficha da receita cheia de nódoas. O pai foi buscar as fotografias do casamento, e a mãe contou pela primeira vez como se conheceram num baile da aldeia. Eu não conhecia a história do vestido emprestado. Voltei para casa comovida, e um pouco triste por ver a mãe tão cansada. Quero falar com ela mais vezes e escrever estas histórias antes que se percam.

Daqui a dez anos, a primeira vai mostrar uma semana banal. A segunda vai guardar uma história de família que talvez não encontrasses em mais lado nenhum.

Como manter o hábito de escrever um diário todos os dias

Raramente se desiste por falta de vontade, mas porque o hábito não está preso a nada. Quatro regras mudam tudo.

Prende o diário a um gesto que já fazes. Depois de lavar os dentes, no autocarro de regresso a casa, quando fechas o portátil. Um gesto que já repetes todos os dias passa a ser o sinal de partida.

Define um lembrete. Uma notificação à mesma hora todas as noites faz metade do trabalho: a motivação vai e vem, o lembrete não. Na Emori escolhes a hora do lembrete diário, e basta uma frase dita ao microfone para guardar o rasto do dia.

Prepara uma versão mínima. Nas noites sem energia, uma frase. «Exausto, massa e um filme com o Tiago.» É uma entrada válida, e mantém o hábito vivo.

Nunca tentes pôr o atraso em dia. Saltaste quatro dias? Escreve hoje como se nada fosse. Querer reconstruir os dias em falta transforma o diário numa dívida, e essa é a principal razão para desistir.

Como manter o teu diário realmente privado

Um diário só é sincero se tiveres a certeza de que ninguém o vai ler. Num caderno, isso quer dizer um sítio só teu, não a mesa da cozinha. Numa app, confirma alguns pontos:

  • bloqueio com código, Face ID ou impressão digital;
  • sem publicidade nem venda dos teus dados;
  • os teus textos não são usados para treinar modelos de inteligência artificial;
  • nenhuma função social ou pública ativada por defeito;
  • uma forma simples de apagar tudo.

Na Emori, por exemplo, o teu diário só é visível para ti, a app pode ser bloqueada com Face ID ou com a impressão digital, e um modo discreto esconde o texto das memórias no ecrã de bloqueio. A transcrição e a organização do texto passam por prestadores de serviços listados na política de privacidade, algo que convém saber na hora de escolher.

Porque vale a pena reler o teu diário?

Reler é o que transforma um monte de entradas em memórias. Recordar de propósito os bons momentos deixa as pessoas mais felizes: num estudo, os participantes a quem se pediu que evocassem memórias positivas sentiram mais felicidade ao longo de uma semana (Bryant, Smart e King, 2005).

Um hábito simples: uma vez por mês, relê o mesmo dia de há um ano. Ou deixa que a ferramenta trate disso: a Emori propõe regularmente uma memória de há uma semana, alguns meses ou vários anos, até no seu widget no ecrã do telemóvel. Para saberes mais sobre o que diz a investigação, lê o nosso guia sobre os benefícios de escrever um diário.

Os erros mais comuns

  • Apontar demasiado alto. Uma página inteira logo na primeira noite, e à décima desistes.
  • Escrever só nos dias maus. O diário passa a ser um livro de reclamações, triste de reler. Regista também as noites banais e as pequenas alegrias.
  • Ficar pelo vago. «Dia bom» não diz nada. «Café ao sol com a Mariana na Ribeira» diz tudo.
  • Ser demasiado duro ao reler. O diário não é um exame. Ninguém corrige a ortografia.
  • Mudar de ferramenta a toda a hora. O caderno novo e perfeito não substitui o hábito. Escolhe um formato e fica com ele durante três meses.

Perguntas frequentes

É melhor escrever o diário de manhã ou à noite?

A noite serve à maioria das pessoas, porque o dia ainda está fresco e pode ser contado por inteiro. Escrever antes de dormir também ajuda a pousar as preocupações: num estudo, escrever a lista de tarefas durante cinco minutos antes de deitar ajudou as pessoas a adormecer mais depressa (Scullin e colegas, 2018). De manhã também funciona, para contar o dia anterior. O momento certo é aquele que consegues manter.

Quanto tempo devo escrever por dia?

Três a dez minutos chegam bem. Os estudos sobre escrita expressiva usavam muitas vezes quinze minutos, mas só durante poucos dias (Pennebaker e Beall, 1986). Num diário de todos os dias, o importante é não fazer dele uma obrigação. Uma entrada curta todos os dias vale mais do que uma página longa por mês.

E se eu saltar dias?

Não faz mal, é normal. Retoma simplesmente no próprio dia, sem tentar recuperar o que ficou para trás. Um diário com buracos continua a ser um diário, enquanto um diário que exige estar completo acaba abandonado. Se os esquecimentos forem frequentes, acrescenta um lembrete ou passa para uma versão mais curta.

Tenho de escrever à mão?

Não. O papel tem o seu encanto e serve bem quem gosta de escrever, mas uma app ou a tua voz dão as mesmas memórias com menos esforço, e são muito mais fáceis de pesquisar. Escolhe o formato que te dá vontade de voltar todas as noites. Também podes combinar: a voz durante a semana, o caderno nas férias.

O que escrevo se não aconteceu nada?

Há sempre alguma coisa: o que comeste, alguém com quem te cruzaste, o tempo que fez, um pensamento que te passou pela cabeça. Os dias banais são os que esquecemos mais depressa, e muitas vezes são os que mais gostamos de reler. Responde a uma só pergunta: «Que momento de hoje quero guardar?»